6 de julho de 2012

MENINA PLANTA

{ligiaprotti}

Sempre verde, se imaginava, de tempos em tempos, como planta. Através de sinais do externo fotossintetizava sutis arrepios espasmáticos. Vez ou outra, num silêncio de folhas secas, pousava-lhe um pássaro e iam num tagarelar de diálogos tontos, incompreensíveis aos humanos não-verdes. O que era de se esperar de uma menina planta? Sorriso cor-de-jambo, pés raízes de Fícus sp., olhos de amêndoas e um tremendo querer de sugar o sol a todo o momento. Menina planta, circunscrita em toda a forma de agir, ela divaga entre o que é pleno e lúcido e o que lhe reserva a vida. Destino seria isto? Na noite enluarada, longe de casa, perguntaram-lhe se acreditava em destino. Mentiu que não, embora no mesmo instante o visse acontecendo. O desejo de destino tecendo o céu negro sobre a pedra com a música festejando.

27 de junho de 2012

deseosdeseosdeseios acesos

deseosdeseios {ligiaprotti}
dei pra pensar na etereidade do desejo
no encontro do flerte
dei pra pensar que é da ordem do áereo
corpos num vibrátil intenso
espocando faíscas
há algo de escuro
escuridão reveladora
daquelas como no mar de jericoacoara
pedaços de estrelas percorrendo a pele
iluminando zonas quebrando ondas
semeando poros
ir e vir dos olhos
pêlos
hálitos
ancas
dentes
sebos 
interno ressoando
intenso semeando

e decerto anda tão perto que a qualquer estalo sinto os ventos do céu dançarem entre minhas pernas.

19 de junho de 2012

EXERCÍCIOS DE INVISIBILIDADE

{ligiaprotti}
Hoje permiti que o desejo caminhasse através de mim. Dava passos leves de modo que senti a pele no pontiagudo dos dentes. Vivendo a clareza na incomunicabilidade -citando aquela do cigarro sempre nos dedos- pousamos para o pátio sob o céu berinjela. Éramos pedras soltas daquelas paredes, tradições díspares, filhos de décadas distintas mar a dentro na atmosfera da noite de verão jasminada -citando o vampiro daquele que canta e compõe - embora fosse outono.  Florescíamos sorrisos ensaiando exercícios de invisibilidade onde não pudéssemos ser vistos juntos, embora a dois, lado a lado, perfilados. Emoldurando a existência finita de afetos que desde há pouco destila visões de uma mesma paisagem, atrás de nós, a janela. Regorgitando símbolos flutuantes como os barcos que no fogo pairam antes de sucumbirem ao tempo único no instantâneo de um só corpo - cinética altíssima, quase gasoso - instante que agora me escapa, éramos olhar escuta silêncio. Breves feito vento.

18 de junho de 2012

ESTADO DE SER

patrimônio da penha {ligiaprotti}
O que acontece comigo agora é doce
belo como se fosse uma festa de aniversário
talvez a sensação de quando um filho nasce
- só saberei quando for a hora-
é uma conquista
há tempos espero por isso
é uma passagem e deve ser comemorada como tal

Hoje percebi que o que envelhece é o corpo
e não o espírito
se engana quem pensa o contrário
é preciso estar atento
só assim é possível caminhar de bicicleta pelo deserto.


11/08/12

11 de junho de 2012

Série L's

Série de desenhos fruto de criação coletiva entre eu e meu irmão, Lucas Protti, em 2010.
Série L's { ligia e lucas protti}

Série L's

série l's / a velhaca peladona {ligia e lucas protti}

série l's / o som da felicidade {ligia e lucas protti}
série l's/  a ambivalência sentimental por toda a terra {ligia e lucas protti}

série l's/ a fêmea moderna {ligia e lucas protti}

2 de abril de 2012

modo a mar



meu instante de espera
caneta pintando o céu
meus pulmões alargados
de tanto mar
tanto amar
a escrita no ar me preenche
o vazio
talvez sempre
de novo
o tango
piazzolla me invade
invade
avança
quebra
despedaça
destrói
arranca
pelas ancas
me lembra
do mar
do mar
do mar
me faz dançar ambição do mar
não de outro modo
daquele que só sabe a mar.

31 de março de 2012

Desejo aos 21

Varal de poesias. IC II-UFES, 2004
Varal de poesias. IC II-UFES, 2004

O sumo por Neide Archanjo

Varal de poesias. IC II-UFES, 2004

Carta-poema pinçada no ar

Varal de poesias. IC II-UFES, 2004

Ando tardia

Varal de poesias. IC II- UFES, 2004


28 de março de 2012

Homenagem tardia ao instante da beira mar {no trânsito da manhã de uma terça-feira}



martins de sá {ligia protti}

"Fonte de vida, a origem
da energia se formando:
linha d'água.

O desejo, hierarquia
de dual sensualidade:
linha d'água.

Do papel o outro nome
a imprimir nossas palavras:
linha d'água.

Leia-se mapa interior
do corpo, carta de magma,
onde se lê linha d'água."

                          Olga Savary

23 de março de 2012

Toda ouvidos

Ideias tardias às vezes me assaltam o pensamento. Chegam portando um outro tempo que o instante não é. Pensamentos de um outro tempo. Colocações de um presente corrido, palavras que não voltam mais. Há que se ter coragem de seguir adiante. Andante, aprendiz de rumos incertos em busca do presente, sempre. Trago um pingente no peito para me lembrar do silêncio. Atento silêncio constituinte da palavra primeva, primordial, vinda daquele que é inominável. Daqui em diante espero ouvi-lo nascendo em mim.

14 de março de 2012

Mensagem cifrada na palha do cigarro que a boca flagra

Subitamente um tanto quanto som
há quando tempo não te via
-palavras soltas como mera desculpa-
teria ficado muda 
talvez nua

quem carrega água no corpo
tem desejo 
da terra
dos olhos
cegos de tanto mar

éramos dois duplos
descendo ao encontro de tontos lampejos
-na hora diria desejos-
cantando rubricas silenciosas de um novo texto

entre meias verdades
os nomes de batismo
impregnados de fonemas incertos
 lóbulos cheios de vertigem
regados pelos dentes
que ainda me assaltam as coxas

enquanto sigo pela estreiteza do corredor enfumaçado de mato.

17 de fevereiro de 2012

Gosto de passar o dia devagar, tranquilidade, ouvindo música. Se houver um chão pra me esticar e um céu estrelado, ainda melhor. Preciso de pouco para a felicidade. Tranquilidade me deixa feliz. A música, o corpo são, mente sã. Nada mais é preciso. Âmbar dos meus olhos pelo mundo. Sonho, todo dia.

14 de fevereiro de 2012

{ligiaprotti}
Hoje lembrei-me de quando caçava grilos na grama
 andava pelo campo verde 
e meus pés suspendiam
 os pequenos insetos saltitantes
 lembrei-me de tê-los nas mãos
 era criança de verde sob os pés

eletrocardiograma


Ela olhava para ele. Olhava para ele com os olhos bem abertos na medida do possível para não ficar feia. Fitava-o a fim de dissecá-lo, soprar a pele por trás dos pelos.Olhava pra ele e esperava a caça ou ao menos uma palavra. Nada. Duas horas de calor e nada. Antes fosse porque estivesse amarrado. Ela também estava e nem por isso temia. Mas na posição de fêmea encarnada seria dele a primeira mordida. Aquela que não houve,ninguém ouviu, não havia. O calor era apenas por conta da umidade excessiva. Ou seria de veia-pulso-tensão-coração? Tesão era o que ela espreitava. Precisava para não desfalecer de tamanho querer, na solidão da casa, ouvir Piazzola desritmado.

Duplo humano

Naquele instante dois seres humanos se olham, macho e fêmea, instintivamente racionais. Se há silêncio, hiato no peito, ouve-se o ronco emergindo da base sacral ao ápice do crânio e, durante a breve decoupage dos segundos, ambos se inserem num tom de cor que já não há.
{ligiaprotti}

21 de novembro de 2011

máxima da alegria

vida {ligiaprotti}
Encontrar tudo o que se é
e não querer ser outra coisa.