24 de julho de 2008

"Sempre soube que nada encontraria aqui" - pensou ele. Mas sempre procurou. Por que? Porque queria encontrar. E a todos aqueles que podia, questionava sobre qual sentido estes, que por um acaso do destino, cruzavam a sua vida, se apoiavam para todas manhãs acordar e vestir os sapatos, vagando de nada para nada com copos de café. Queria algo que lhe viesse em resposta nos ouvidos. Como um sopro, como aquela vez em Saquarema quando a maresia batendo em seu rosto sussurrou a fagulha deste incêndio particular. O sentido talvez pudesse ser seu também, o sentido do outro, mesmo sabendo que era um assunto único, e que se existisse um Deus, esse o havia escondido muito bem para que não fosse fácil encontrar.


Então aquietou-se, porque talvez esta resposta lhe custasse a vida, e a vida em si já bastava.

Adormeceu sobre a ausência dos próprios sentidos.






by Lucas Protti

3 de junho de 2008

SOMBREIRO


{ligiaprotti}
Cabe a mim admitir a vida própria do meu não tão -ainda- conhecido inconsciente. Belíssima atuação, se analiso a autenticidade, o não medo, coragem, e o modo amoral como atua.
Primeiro, se mostra no sonho e, depois , ainda não satisfeito, surge nas palavras trocadas, embaralhadas. Ao primeiro sinal pode-se pensar que estou confusa, mas é apenas o vir à tona do que em mim, no mais interno e ofuscado pelas sombras, há. Pensamento negado, aquilo que escondemos atrás das roupas que menos usamos, dentro de gavetas já emperradas.
Escuto-o, reflito, mastigo, falo, grito. Não há porque temê-lo, pois que é lavra, nascente, precisa escoar, afinal, represado, desbaratina. Como se fosse impensado, já que é sempre domado, se faz presente inesperadamente. E, de fato, presente é, se souber identificá-lo.


No lugar do teu nome houve outro
porque fervilhava o episódio pouco antes ocorrido
nada além disso
houve grito
- o compartilhar alivia-
era preciso que soubesse
eu apenas, ainda, não sabia

agora sim, dialogo
com ele, com tú
em mim
conosco
ouço-me e sou ouvida.

1 de junho de 2008


Sulcos na carne
palavra adentro
alimento
fluxo contínuo sugando suor
respiro/respiro/respiro
giro incessante
como negamo-nos tantas e tantas vezes?

-Diga-me, palavra
!

Solista palavresca contínua
por vezes escapulindo por entre os dentes
mordendo a mim mesma
meu esperma Hera
que me lança lança dança
giro no som

saliva
solista de som imaginário
quedas desmedidas
respiro
teu hálito forma minha linfa
arcada única das sílabas sulcando o corpo
inflando o peito
corteja
goteja

lanternas gotejando dos teus olhos
aos meus
aos montes
monte de vênus
teu peito
meu púbis
minha boca rima com seu falo.

VÊNUS

{ligiaprotti}



Sem me importar em entoar canções fora do tempo
nem temer algum desapontamento
fiz da vontade sopro
despida do casulo imaginário
enviando mensagens coronárias
a fim de derrubar temores
realidade no lugar da cena
beijei-te a boca como quem toca purpurina no ar
e teu rosto de espanto me fez mais Vênus.
COBRE
ROSA
RUBRO
BEJE
COR
SILÊNCIO
RUBRO
SILÊNCIO
NÃO
SILÊNCIO
SIM
SILÊNCIO
CORAÇÃO
SILÊNCIO
SIM
SILÊNCIO
TUM-TUM-TUM
SILÊNCIO
SIM
SILÊNCIO

BOCAS

SILÊNCIO


E

S
I
L
E
N
C
I
O
ENQUANTO POSSO.

23 de janeiro de 2008

auto-retrato {ligia protti}
Uma mão saiu em busca de outra
passou por entre ventos
tempestades
caminhou livre
o vento por entre seus dedos

uma mão
sozinha
de repente
encontrou outra
também só em sua lida

tocaram-se
contato feito
seguiram segurando-se
apoiando as pontas dos dedos
brincando de espelho
desbravando fendas
segurando medos
fundindo-se

até que uma das duas
lembrou do gosto do vento
de ser livre
lembrou do querer
ir ao alcance das estrelas
tocar o sol
lembrou do mar

chorou


eu também chorei.

4 de janeiro de 2008

Floresta à beira-mar

Não escolhi tal anonimato, nem desejei dizer verdades enquanto se constroem notas musicais. Mas, foi, de repente, que como o caroço da drupa me tirou o sono. Era noite, e teus olhos me lembravam a Índia.

Espectral ocular de desvio inconsciente, trouxe-me à boca gosto de corpo que fala em silêncio - corpo que fala em silêncio - transcedental no meio de todos.

Iluminada por todas as árvores dos frutos, meu gozo no meio de todos. Era noite, e tudo o mais evaporava-se. Boleros imaginários, voz ampliada na escuridão.Floresta cantando.

23 de dezembro de 2007

Iceberg Natalino

Mais uma vez é Natal em minha cidade. Sei disso por causa das luzes, cansando-nos a retina, e por causa do aumento de crianças nas ruas pedindo esmolas. Sei que é Natal também devido à ilustre presença dos imensos bonecos de neve, colocados à beira mar. Quando cai a tarde vão sentar em seus colos crianças e mulheres que passeam de mãos dadas com namorados. Esses últimos lançam flashes sobre a neve do ser sorridente. E assim, não caibo em mim de tamanha "felicidade" ao ver a magnífica iniciativa em optarem por uma árvore com espumas brancas, no meio da principal praça da cidade-sol. Isso mesmo, meus caros. O quê?! Aquecimento global?! Que nada, isso não existe! É só pra assustar o povo do terceiro mundo, afinal tem neve até na praça. Tudo papo pra gringo ver. A gente quer mesmo é se fartar de peru com batata palha e champagne.

11 de dezembro de 2007

Espiral Noturna

Lâmpadas de cores várias.
A realidade de cada apartamento é única.
Os filhos pequenos do casal do térreo me fazem recordar a paz da infância. Brincam cantando fragmentos da música "Dona Baratinha".

Hoje o filme me deixou com um certo medo de São Paulo. Vi-a cinza, fria e solitária. Só os casais são felizes naquela galáxia. Assustada, retorno à caverna. Tão deslocada de tudo - política, novela, antúrios - será que o mundo ainda me recebe? Será que me oferece chá de laranja com biscoitos, ou simplesmente me manda esperar?

- Não sou todas. Sou somente aquela lá-

Basta de espelhos cinematográficos. Sou minha própria escultora. E assim, sei que não há como ir contra os dias que antecedem a calmaria das rubras águas, quando minha boca de baixo fala.
Nestes, fico triste e mórbida, quase uma fada. Penso, então, ser possível viver sozinha na Via Láctea.

-Ai dos que me lêem na rua. Não vêem-

Como devagar e no escuro do abajur feito de palha. Como e penso na existência. Pão que me alimenta, parede que me sustenta, a cama me dá o aconchego e o vermelho da cortina é o que me chega aos olhos. Sou essa que vos fala. E confesso que fiz tudo ao contrário. E nessa, cinco anos se passaram.

30 de setembro de 2007

Doce Gozo

Pôs-se, então, a se deliciar com o processo. Seu primeiro contato com tal alegria foi senti-la através dos lábios. A parte úmida destes que fica toda a vida intravertida, se comunicando apenas com os dentes, tinha agora a presença daquele objeto. Utilizando-se dos dedos para guiá-lo, deslizou-o por sobre a boca umedecida por inteiro, agora pela língua. Foi quando se sentiu invadida pelo entorpecimento que, naturalmente, tal objeto lhe causava através do contato com a mucosa e, ainda, por entre os dentes na gengiva. A sensação, provocando o ocular revirar das pálpebras, fez com que colocasse o tal objeto por inteiro dentro da boca, de uma só vez, chupando-o lentamente, agora livre dos dedos. Sugava e remexia-o com a língua procurando o contato com todas as cavidades daquela caverna vermelha e úmida. Em cada canto um gosto, um gozo. Seu corpo, agora, escorregava pelo sofá ,livre, pois havia encontrado o sumo daquilo que tanto chupava. Chupava, chupava. E a cada sugo seu, mais caldo soltava. Tratava, então, de engolir de uma só vez aquele caldo adocicado que se soltava e pensava na definição daquele momento. Foi, então, que desistiu de pensar. Catou no chão o papelzinho e leu: "bala de hortelã com recheio de caramelo".

13 de setembro de 2007

{ligiaprotti}

3 de setembro de 2007

Carente de orvalho
lótus estirada [seca] quase pálida

nutrida por raízes de tropismos incertos





12 de agosto de 2007

auto-retrato {ligia protti}

Dei pra escrever-te assim, nua, lápis em punho, feito seu pau rijo quando em contato com a minha coxa.

Dei pra escrever-te louca, exalando fogo pela boca, capaz de incendiar a Torre de Babel que sustenta nosso ato.

Dei pra escrever-te assim, desse jeito, boba, sedenta pra gargalhar quando seu íntimo me invade.

Dei pra escrever-te sua, simplesmente porque dei-te e nada mais agora tem volta.

17 de maio de 2007

69



Cachos soltos
tontos são
teus cachos sobre os meus




Caramujos abaixo do umbigo
               


                69




17/05/07

MADRUGADA MATINADA NO ERVA DOCE

{ligiaprotti}
Qualquer dos cantos, num canto de todos, juventude é sempre a mesma. Isenta de beira e eira, páira tontas imagens vertiginosas. Páiro. Páira. Pássaros juntamente à galáxias de éter amônico, siamêses olhares. Intercalam-se sombreiros. Sobreijos. Sobre beijos.Sobre o que mais? Queijo com tubérculos de cor laranja. Hoje ganhei botões de flores. Mais do que eu queria. E ainda daquele que se despede lançando no ar solfejos. Ganhei-as vermelhas. Fui feita de pólen. Nasci com clorofila áurea.
Anímica cor do espaço. Lança-me. Laça-me. Eu falo do que me abate. Banida do que eu penso ser. Sendo outrem. Vou-me.





10/05/07
(na madrugada matinada do Restaurante Natural Erva Doce - UFRRJ)

TATOS



porta do fluxo contínuo {ligiaprotti}


















Isso que me sai
como gozo entre as pernas
de fluido róseo
doce sumo da fruta
é quente e chega feito lavra

Estilhaçar de cactos
tontos espasmos
alvorada
isso que me sai
buscando-me completa

Espectadora de mim mesma
me avisto, leve, cálida, tímida
me avisto e me perco
sangria e grilhões através dos montes

Carrego o mundo entre as pernas




21/12/06

30 de abril de 2007

SINTA


{ligiaprotti}
Senti-la sem
tira 
agora sim
a serpente cintila 
sequiosa sobre mim
sinta 
sibila

23 de abril de 2007

Sol poente. Tiro do chão uma pedra. Devaneios do inconsciente. É vã minha preocupação materna. Descaso palavras abertas. Crianças crescendo amputadas, retorcidas. Ainda assim, tudo me força a gerar vida.

Me mima, me mima. Marquei um encontro de sílabas com a jia. Todas as mulheres são capazes do sexo. Todas dignas de uma transa. Até mesmo as sem membros, absurdamentes deslocadas. E, assim como o gozo de saber que alguém lhe observa, caminho à procura de mim mesma.



17/04/07

10 de abril de 2007

ABUELA

foi aquilo tudo
junto
naquilo que é tudo
junto foi
foi que tudo que é
aquilo, foi junto
e eu, era filha neta menina

abril/2006

Me perco e me divago
porque não sou o que querem que eu seja

Sou dos mamilos enrijecidos à palavra que me toca




19/03/06
{ligiaprotti}