23 de janeiro de 2008

auto-retrato {ligia protti}
Uma mão saiu em busca de outra
passou por entre ventos
tempestades
caminhou livre
o vento por entre seus dedos

uma mão
sozinha
de repente
encontrou outra
também só em sua lida

tocaram-se
contato feito
seguiram segurando-se
apoiando as pontas dos dedos
brincando de espelho
desbravando fendas
segurando medos
fundindo-se

até que uma das duas
lembrou do gosto do vento
de ser livre
lembrou do querer
ir ao alcance das estrelas
tocar o sol
lembrou do mar

chorou


eu também chorei.

9 comentários:

Anônimo disse...

Fundações

A princípio ignora-se o som,
o inconfundível estalar das coisas prestes a partir.

As paredes então se riscam com fissuras
que agora, no silêncio, espreitam o colapso.

Diz não querer ficar, tampouco sabe como ir,
querendo estar em qualquer outro lugar
do que nesta morada prestes a ruir.

No silêncio existe dor,
no horizonte compaixão.
Sob este teto há o conforto,
é mais fácil dizer sim
do que desviar dos escombros e gritar não.

Tudo repousa em um equílibrio frágil de um jogo de peças que não se encaixam mais.

Eu queria que tudo fosse mais fácil,
mas no escuro mãos tateiam em vão.

Anônimo disse...

De quem é esse texto?

Ligia Protti disse...

Sabe que isso anda ficando gostoso, postar e ser postada. Re-ler o verso de outrem.
Só queria saber quem são...

Grata,

A cozinheira do Omelete.

Anônimo disse...

é meu Lígia

Anônimo disse...

apesar desse seu texto não ter o habitual rico jogo de palavras(normalmente com os sentidos) e uma profusão de figuras de linguagem, achei ele tocante, principalmente como retrata a solidão em termos da liberdade do outro.

É justamente a dimensão "estelar" e "oceânica" dessa liberdade que se equipara com o tamanho de tal solidão, e por escolher não delinear a mesma com palavras e formas, mas somente deixar o sentimento ecoar no vazio, o poema torna-se muito mais pungente.

Talvez seja por que as vezes sou um tanto soturno, mas dentre o material seu que já li, esse seu texto é o que mais me comoveu.

D disse...

hum ... se você gostou desse texto, talvez goste de alguns outros que escrevi ... só não queria(ou não tinha coragem de) mostrar antes.

A maioria são músicas que perderam sua voz e lê-las não é a mesma coisa. Outros textos não são lá muito palatáveis, mas eu também não sou... acho que assim como cachorros, os textos se assemelham aos seus "donos".

http://entranhas-expostas.blogspot.com/

maria maria disse...

saber aqueles textos que quando vc lê arrepia até a última vértebra? então.. amei esse texto!

D disse...

escreve algo novo ...

lucas disse...

o mundo é feito
de um vazio,
de uma bolha de ar
incalculavelmente grande
aonde tudo tem um porque,
mais não cabe a nós
sermos tão grandes.

sobrevoamos a existência
das coisas, rejeitamos umas,
nos excitamos com outras.
algo nos atrai, algo que
nos faz mexer os musculos,
sorrir.
sair, sair, sair.
sair inércia.

seremos algo?
me perco com as palavras,
nesse vazio indecifrável,
que a minha pupila capta,
absorve, ama, flagra.
mas é muita coisa
muita coisa pra uma cabeça
só, seria transbordante.

pois é,
permaneço assim,
navegante.